Em Cena

A recordação dos sentidos ou a história por trás do tempo

Coluna dessa semana tenta compreender o teatro através de seu próprio tempo, que voa em direção aos caminhos que podemos, ainda, definir diante da história.

Baudelaire certa vez definiu a memória enquanto parte do corpo, próxima do paladar e do odor e, obviamente, longe das aspirações e das categorias de Kant. Exercitar a memória é exercitar os sentidos todos, cavoucar no inconsciente pequenos momentos, de diversas formas: cheiros, toques, sorrisos. A memória é uma construção sensitiva do mundo e passa por nossas mãos, inunda as nossas bocas e enche a vida de encantos.

Além de ser uma das formas de nos tornarmos eternos, talvez a mais eficiente delas, a memória é o braço direito da lembrança, uma das maneiras mais eficientes de habitarmos o mundo. Afinal, um homem sem história é um homem preso à sua própria insignificância. Prova disso é o nosso incorrigível ímpeto de catalogar, limitar e etiquetar as almas, os momentos e as pessoas. Somos filhos perdidos dos gabinetes científicos que insistem em nos fragmentar através de seus caprichos. A humanidade caminha em direção ao precipício, feito fantasmas vítimas do próprio assombro.

O carretel das lembranças, na esperança de virar memória, não poupa esforços. Roda feito engrenagem viva, busca nos cantos a fagulha divina da vida, escarra na face do destino a sua vontade. Diante de seus desejos, parecemos pequenos seres perdidos na busca por sentidos ou satisfação. Somos tantos, quantos? Quase sempre pouco. No teatro, não escapamos dessa certeza. Ao adentrar uma sala escura, cheia, onde o sinal que principia o espetáculo nos transforma em zumbis, somos bombardeados por lembranças que nos tomam através dos sentidos e nos fazem sentir um tiquinho mais gigantescos de fronte a uma existência insignificante. Os figurinos carregados de vontade e poeira, a maquiagem que inebria o ar com sua suada imposição. O gosto de sangue na boca que nos lembra dos caminhos trilhados até o palco. Fazer teatro é se entregar à memória. Fazer teatro é ser vítima da história.

Fazer teatro é se entregar à memória. Fazer teatro é ser vítima da história.

O teatro é uma forma de anunciação, um delírio coletivo que rasga os sentidos da lembrança e voa, junto ao vento, em busca da eternidade. Se uma peça nunca é a mesma, por mais que a apresentemos, é fato que o teatro, apesar de seus tormentos, rompe com a linearidade de uma história estabelecida e se transforma em história viva, reescrita a cada fala, revista em cada movimento cênico, pressentida em cada saguão à espera do início desse delírio coletivo. O teatro vaga pelas sombras e aqueles que, diante dessa arte, encolhem suas asas correm o risco de perder o seu tempo e de ter o seu espaço tomado pelo medo.

No teatro de combate, a coisa toma ainda outra forma. Se por um lado a história demonstra a necessidade de uma teoria revolucionária para se impor no espaço, é compreensível que toda teoria exige uma prática, nesse caso revolucionária, que almeja se perpetuar no tempo. Uma luta contra a fúria da máquina do estado, que empunha suas armas de dominação através da sociedade estabelecida. Concordando-se ou não com esse estado lastimável de vivência, o recado é o mesmo: abaixe-se e paste! Uma existência desperdiçada em campos modernos de pastagem humana. A saída disso só pode ser a folha em branco que encobre toda sala de espetáculos.

É preciso que os atores, e todos aqueles que se envolvem no processo de criação e concepção de uma peça teatral, saibam da importância dessa arte para libertar e reinventar uma vivência que hoje se encontra em completo desencanto. Se os estudantes franceses estiveram certos há quase cinqüenta anos, é fato que a arte permanece morta e que todos nós, em estado vegetativo, consumimos seu cadáver sujo para nos mantermos vivos. Isso é pouco, quase nada, diante da ofensiva escancarada do horror no mapa-mundi de nossa miséria.

Não há saída para um teatro conivente. Uma experiência cênica submetida a um estado policial de vigília permanente, a um conglomerado de ratos engravatados que nos consome diariamente à força e à graça de nossa existência está fadada ao esquecimento. Está posta, desde já, à famosa e tão cultuada, por direitas e esquerdas, lata de lixo da história. Um teatro refém da sociedade é um teatro mudo, um teatro sem sentido e com os sentidos estraçalhados.

Sonhamos com o dia em que os artistas não se adaptem mais ao mundo moderno, no sentido de rejeitar uma sociedade que o consome entre um gibi da turma da Mônica e um jantar de negócios. Acreditar no teatro é acreditar numa saída para a vida burguesa, trivial e reprimida, que enumera psicopatias em busca de uma paz que só pertence a Deus.

O teatro precisa tocar as classes trabalhadoras, libertar a informação, e fazer gracejar no mundo a coragem que é própria daqueles que não se rendem. Ou isso ou continuaremos presos a uma existência vazia, sobrevivendo entre devaneios estéticos e desesperos poéticos, como a última trincheira travestida de uma burguesia falida. Reinventemo-nos, então, antes que seja tarde, e que a memória nos transforme em pequenos covardes com aspirações históricas incompreensíveis. Lembrem-se disso ou esqueçam o ofício da rebeldia.

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Bruno Zambelli

Bruno Zambelli é diretor teatral e ator com formação em Artes Cênicas pelo Conservatório Carlos Gomes. Foi editor da revista de cultura Terceira Dentição e colunista do blog cultural Prato do Dia. Foi idealizador e produtor do Sarau LetraFurto em São Paulo. É escritor e idealizador da editora independente Encruzilhada Edições.

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