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Com o fumo na lapela - teatro
"Campert". Ilustração: Rafael Varona.

Falar de teatro muitas vezes não diz respeito tão somente ao palco, seus encantos e delícias. Acreditar nisso seria o mesmo que crer que ao falarmos da vida deveríamos apenas atermo-nos à parte boa da coisa: beber, sorrir, amar e o diabo, pai da diversão e do pecado, por exemplo. Não! Infelizmente não é assim que a banda toca em relação à existência, e também assim não o é com o teatro e, por consequência, com essa singela coluna que trata do assunto. Vida e teatro, se vistos de perto, dizem mais a respeito de nossa teimosia do que de nossa vocação.

Para saber que a vida não é mole basta estar vivo. Ainda mais por aqui, na antiga e sossegada Terra de Santa Cruz, e levando em conta o tempo de retrocessos e absurdos em que vivemos. Temos a todo instante a sensação de que estamos presos, sufocados, dentro de um triturador de almas funcionando a todo vapor, e o pior de tudo isso é que, pelo deslizar da canoa, precisamos aprender a lidar com isso ou, na melhor e mais improvável das hipóteses, aprender a atirar mais do que ovos, sem culpas ou textões.

A verdade, meus caros, é que sempre fomos enganados. No fundo, a vida não é bela, ou ao menos nos nega muito de seus encantos enquanto o desespero e a aflição são nossas companhias eternas pelos passeios da rotina. Até o que é bom na vida dói! Duvidam? Pois lembrem-se de que pra todo porre existe uma manhã de ressaca e ansiedade. Pra estraçalhar todo sorriso, existe um murro seco e amargo de bílis que quebra a louça do fundo da boca. E contra todos os amores existe o ódio: moeda em alta na preferência do bicho homem. Difícil gostar disso, não? Pois assim também é o teatro.

À primeira vista, tem-se sempre a impressão dos olhos abismados pela paixão. Ao primeiro olhar, tudo é sempre fantasia e beleza. Diante do primeiro suspiro, o mundo não pesa e a vida é como na música: bonita, bonita e bonita. O palco também é assim. De início, quando da íris enfeitiçada pela poeira, até o cheiro de um teatro provoca em nosso estômago furacões produzidos por borboletas. O breu, as luzes, a plateia ainda vazia… a vida no teatro é sempre linda à primeira vista, mas sempre acaba ao raiar da luz de serviço.

Teatro e vida misturam-se quando, como disse Artaud, a tragédia do palco transporta-se pra vida.

E que não pensem os desavisados que a constatação trata-se de lamentação. Não! É um exercício de fé, é a defesa da fantasia! Pois assim como a vida é o teatro. Reclamamos dela sim, mas não abrimos mão de um segundo sequer de sua seiva. Reclamamos por hábito, por raiva e até por falta de assunto. Teatro e vida misturam-se quando, como disse Artaud, a tragédia do palco transporta-se pra vida. Sim, a dureza da vida nos leva à busca pela poesia. Uma poesia sem fim, que está por aí, escondida nos olhos tristes da moça que se esqueceu de sonhar; no sorriso desfalcado daquela criança que ri do medo e, dependendo do caso, na escuridão infinita do palco. Na possibilidade de viver uma outra vida através do teatro.

Tenho conversado com muitos amigos e em todos os papos, em certa altura e hoje em dia cada vez mais cedo, surge na conversa aquela hora das reclamações. Estamos, sim, fatigados de muita coisa, e não só dos maridos católicos suspeitosos postos em dramas. Estamos fatigados de não poder. E não falo só dos homens de teatro, falo de todos os miseráveis que ainda não se rebelaram contra o não que vem de todas as bocas: da do político, da do padre e do patrão.

Há tempos, perdemos o direito de sonhar e vivemos embaralhados entre vencimentos, faturas e livros-ponto. Mas se essa é a vida seguimos. Tocamos o bonde porque tanto no palco quanto na vida o prazer, apesar de raro, é sempre superior à dor. Vez ou outra as linhas podem parecer longe da esperança, e o cheiro do fumo preso na lapela pode fazer o luto parecer infindo. Doce engano! Uma hora, amigos, a vida dá um salto e surge no horizonte um pequeno ramo de flor.

Um botão perfumado, com o cheiro preferido de todos os homens do mundo. Essa pequena flor há de crescer em nossos braços, tomar nossos tórax e chegar, enfim, à nossa lapela. Por ali, vai procurar seu lugar e, ao menos por alguns instantes, vai transformar o cheiro do fumo numa brisa leve de pétalas. E então a gente vai se lembrar de que é preciso seguir a diante. Por mania, por vontade ou pela defesa do direito ao sonho.

Acreditem, uma hora dessas a esperança ainda brota! Até lá, é preciso deixar o fumo ali, quietinho, que vez ou outra é preciso sentir seu aroma pra gente lembrar que a vida, na flor ou no fumo, é sempre brasa. E que gente é pra brilhar, e, por que não, pra arder!

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