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Imagens da obra 'J'aime la mime', com textos de Jean Dorcy
Imagens da obra 'J'aime la mime', com textos de Jean Dorcy. Foto: Monique Jacot.

A poesia do mínimo: A mímica nasce solitária, simples e, justamente por conta disso, já rebenta livre diante dos olhos. Sem cenários, sem elementos, sem acompanhamento musical; tratamos de uma forma de expressão complexa, que exige extrema dedicação e uma precisão cirúrgica do intérprete. Por conta dessa particularidade, é gigantesca a diferença entre um ator de teatro dramático e um ator de mímica. De acordo com a obra de Dorcy, a atitude no ator de teatro é regulada, pontual. Acontece invariavelmente no fim das frases executadas e serve enquanto “método auxiliar” da atuação propriamente dita. No caso do ator mímico, a atitude passa a ser a própria essência do trabalho desenvolvido.

É fato que a mímica moderna se expressa quase que exclusivamente através do corpo do ator, esquecendo-se, por exemplo, da face. Por conta disso, pode deixar-se confundir novamente por essa idéia de arte auxiliar. Essa confusão pode ser explicada pela dificuldade dos atores modernos em dominar perfeitamente os movimentos do rosto em sincronia com o movimento corporal. Isso ocorre por diversos fatores, e seria impossível enumerá-los, todos, nesse espaço. Um desses motivos, talvez o principal deles, seja a velocidade de produção atual, que prioriza a quantidade e não a qualidade e faz com que os atores precisem se “especializar” ao invés de se entregarem aos encantos da atuação em todas as suas possibilidades. É por isso, também, que temos no inconsciente a figura do mímico de aniversário, com sua face esbranquiçada e sua boina característica. Completam o figurino a famosa camisa listrada e as luvas características.

É por isso, também, que temos no inconsciente a figura do mímico de aniversário, com sua face esbranquiçada e sua boina característica.

Sem desmerecer ou reduzir a importância de qualquer ofício, a mímica está muita além do entretenimento infantil e é uma forma de poesia das mais completas.

O futuro, desconhecido e impreciso: Ao fim do livro, segundo Fernando Peixoto, Jean Dorcy faz a seguinte indagação: sobreviverá a mímica ao ballet e ao teatro como gênero puro? A este que vos escreve, é difícil responder a pergunta. Evidentemente que a mímica ainda faz parte de nossos dias e de nossos palcos. Dario Fo, por exemplo, foi um gênio dessa arte. Burnier, na cidade de Campinas, dedicou-se aos estudos da mímica e o Lume Teatro ainda hoje utiliza os métodos de Luis para criar seus espetáculos.

Pelo Brasil e pelo mundo, sobram exemplos de companhias e atores que tem na mímica sua base; no entanto, a mímica, tal qual define Jean e seus mestres, talvez não exista mais. A arte passa por transformações através do tempo e aqueles que fecham os olhos para essas transformações, e carregam na retina um purismo intocável, correm o risco de tornarem-se tão ultrapassados quanto as idéias que preservam no altar cênico.

O mundo hoje não para! Somos metralhados por outdoors e comerciais, vivemos reféns de telas luminosas e já não temos mais tempo para desperdiçar com a contemplação. O teatro, feliz ou infelizmente,  não foge disso. Hoje, a boca de cena é reinado de projeções, de efeitos visuais dignos de filmes hollywoodianos, e esse caminho parece não ter volta. Diante desse cenário catastrófico para os sentidos, é possível reconhecer na mímica uma forma de resistência poética. Uma ode à imaginação.

Como escreve Fernando Peixoto, a mímica tem o importantíssimo dever, e essa tarefa é eterna, de trazer de volta ao público a possibilidade de imaginar, de sonhar diante do nada. Segundo ele, “a mímica faz com que o espectador sinta todo um cenário inexistente materialmente. Traz para a imaginação do espectador toda uma planície, um oceano ou uma jaula de leões”. Portanto, a única conclusão possível talvez seja através dessa expressão que descobriremos como escapar da jaula do próprio teatro moderno, ao menos para este ator. Pois como disse o grande Marcel Marceau, o ator de mímica coloca o problema do homem em sua essência. É o homem preso pelo silêncio, o mais eloqüente e eficiente de todos os discursos humanos.

Leia a primeira parte deste texto clicando aqui.

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