Em Cena

Em ‘Na Selva das Cidades – Em Obras’, Hegel e Brecht travam duelo

A mundana companhia leva em seu espetáculo, 'Na Selva das Cidades - Em Obras', a luta pelo poder.

A mundana companhia é uma trupe de teatro de São Paulo, idealizada por Luah Guimarãez e Aury Porto no início dos anos 2000, que tem como mote fazer transitar diferentes artistas criadores (cenógrafos, figurinistas, atores e diretores) por seus projetos, promovendo inusitados encontros. Sua primeira montagem foi A Queda (2007), adaptado e dirigido por Aury Porto.

Na Selva das Cidades – Em Obras (#17palco), apresentada no Teatro da Caixa Cultural Curitiba de 2 a 4 de março, foi a primeira encenação do espetáculo em um palco italiano. A companhia defende que a cada reapresentação há uma nova instalação readequada ao espaço. “Já se foram 16 ocupações, palavra que passamos a usar para designar o modo como nos apropriamos dos espaços onde nos apresentamos. Não fazemos uma simples adaptação, refazemos tudo”.

O cenário (de Flora Belotti) em Curitiba resumia-se a um palco inteiramente aberto, nu, sem coxias ou rotunda, mostrando os bastidores, com dois planos ligados por uma escada no canto direito ao fundo do palco. Os atores aguardavam sua entrada na lateral da plateia. No centro e no fundo do palco, havia também um gongo chinês que anunciava o início de cada quadro. Alguns objetos de cena como livros, engradados de cerveja, apostila, etc, auxiliavam na construção do cenário. Os figurinos (assinados por Joana Porto e Diogo Costa) eram extremamente delicados e bem pensados.

Apresentam-se de maneira clara as relações injustas de subordinação e duelo fruto da desigualdade social tornando o espetáculo ainda mais atual.

Em 1912, na cidade de Chicago (EUA), trava-se uma batalha ideológica e moral entre George Gaga (Washington Luiz Gonzales) e C. Shlink (Aury Porto). Gaga é funcionário de um sebo conformado com sua situação financeira precária, porém Shilink – neste momento na figura de um comprador – o desafia a vender sua opinião a respeito de um livro. Que vale a razão, a experiência pessoal ou a crença diante de cinquenta dólares? A partir daí, o imigrante e empresário de sucesso faz desmoronar todas as certezas na vida de George Gaga. Está posto o duelo.

A luta entre os dois dura anos e os leva a extremos, como, por exemplo, Shilink dar à Gaga a administração e propriedade total de seus bens. Também afeta diretamente todos os mais próximos dos dois, mesmo que não envolvidos na luta.

A iluminação (de Alessandra Domingues) na primeira cena criou com facilidade um espaço limitado em um círculo que auxiliou na tensão criada pela proposta do duelo entre os protagonistas. Bastante equilibrada, a iluminação destaca-se também na segunda parte da peça em que, em determinada cena, a luz de cor roxa reflete no figurino claro e na cor da pele dos atores e se vê verdadeira poesia entre Marie Garga (Luah Guimarãez) e o imigrante. Muito inteligente também é a projeção de vídeo (feita por Yghor Boy) em uma grande escala criando ambientação e fazendo as vezes de cenário. A sonoplastia (de Guilherme Calzavara) é em grande parte uma ambientação sonora sensível operada artesanalmente ao vivo.

Não só de Bertolt Brecht (1898, Alemanha) é a dramaturgia como também parte do mecanismo de direção, pois em muitos momentos seus recursos de distanciamentos são utilizados. O anúncio das ações seguintes, feito por um dos atores despido do personagem logo na primeira cena da peça, por exemplo. Essa ferramenta de distanciamento apresenta-se no mesmo caráter em outros quadros, bem como o estranhamento promovido pelo dourado na pele de Sr. Shilink e na quebra da quarta parede.

Apresentam-se de maneira clara as relações injustas de subordinação e duelo fruto da desigualdade social tornando o espetáculo ainda mais atual. Em uma analogia, talvez possa-se dizer que Na Selva das Cidades é uma atualização brechtiana da Dialética do Senhor e Escravo de Hegel (1770, Alemanha), nos quais há sempre uma relação de dependência, poder e autoridade (neste caso financeira), entre dois seres. Como entenderia Bertolt, o desejo do oprimido é tornar-se opressor, mas não é de seu interesse ser livre. Porque, para Hegel, a liberdade implicaria no fim da relação de coexistência entre os dois. E é isto que acontece ao final da peça. Se não há uma relação de duelo, de servidão por um dos lados, não há porque continuar.

O espetáculo segue no repertório da mundana companhia e sua agenda pode ser consultada através do site: http://www.mundanacompanhia.com.

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Marianna Holtz

Marianna Holtz é bacharelanda e pesquisadora em Teatro na Pontifícia Universidade Católica do Paraná desde 2015. Trabalha como produtora cultural. Foi sócia e diretora de produção na empresa e espaço cultural Garimpo Galeria Ltda, onde organizou e produziu exposições, shows e espetáculos.

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