Em Cena

O Teatro Anarquista de São Paulo

Coluna narra a história do Teatro Anarquista em São Paulo como ponto de partida para compreender o teatro como mecanismo de luta.

É sempre complicado falar a respeito das idéias e do movimento Anarquista, afinal, nenhuma outra ideologia ou movimento sofreu tanto ao longo de sua história por conta de deformações e desinformações quanto essa doutrina. Talvez por ser a mais libertária e justa dessas idéias, talvez por conta de sua “má reputação”, fruto da falta de informação e do preconceito. Impossível saber ao certo o motivo, mas o fato é que o Anarquismo ainda soa estranho aos ouvidos da maioria da população e talvez por isso mesmo seja necessário tocarmos no assunto. Falar em anarquia não é apenas falar de libertação, mas também uma forma de corrigirmos uma injustiça histórica.

Teatro e Anarquismo sempre estiveram juntos, basta lembrar que Dioniso, deus dos palcos e do vinho, sempre contestou e lutou contra todo tipo de autoridade. Por isso tocar no tema em uma coluna dedicada às Artes Cênicas não deve causar estranhamento, no entanto, é preciso deixar claro que a coisa aqui não se trata de palanque ou catequese ideológica, mas sim de mostrar como no início do século os anarquista do bairro do Brás, em São Paulo, transformaram sua condição social e lutaram contra a opressão através do teatro.

Em primeiro lugar, é preciso compreender que no processo imigratório de São Paulo milhares de italianos vieram para cá, e, à época, muitos deles instalaram-se no bairro do Brás. Eles não trouxeram apenas seus ofícios, ou a disposição para servir de mão-de-obra, mas também suas culturas e ideologias.

O período era da República Velha e lá, como cá, os poderosos utilizavam seus poderes para fazer o que bem entendiam com o país, aproveitando-se inclusive da máquina estatal para benefício próprio. A famosa “manutenção do poder”. Aos imigrantes era necessário uma organização, caso contrário continuariam sujeitos aos abusos da elite, no caso a agrária. Sindicatos, sociedades de classes, bairros operários: interesses coletivos se defendem de maneira coletiva, sempre,

No início do século, os anarquista do bairro do Brás, em São Paulo, transformaram sua condição social e lutaram contra a opressão através do teatro.

A situação gerou conflitos, evidentemente. Dentre esses conflitos, o maior deles talvez tenha sido o ideológico, travado através de meios de comunicação da época. Os capitalistas, detentores do capital, utilizaram-se do cinema, europeu e norte-americano, enquanto armas para a batalha. Aos anarquistas restou o teatro. É verdade que não apenas ele. Em sua luta, esses imigrantes criaram escolas, como meio de formação intelectual independente do operário visando a contestação do sistema, além de centros de cultura, círculos de palestras, greves e atividades de formação diversas. Foi depois da dura repressão de 1917 que o teatro passou a ser a atividade principal de resistência dos anarquistas.

Os primeiros registros de peças anarquistas no Brasil datam de 1902. Os espetáculos eram apresentados apenas nos idiomas originais das obras, italiano e espanhol na grande maioria. A partir de 1914, quando proletariados já não eram apenas imigrantes, aconteceu a tradução das peças e com a Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) e a estagnação da cultura europeia surgem os primeiros textos (dramaturgia) de anarquistas em português.

As peças, apesar de distintas, possuem características em comum. São sempre libertárias, tratam do ponto de vista do operário e de seu cotidiano, além de contestarem as autoridades. Os temas variam: greves, relação empregador e empregado, condenação da ordem e insubmissão ao Estado, desigualdades sociais. O teatro era utilizado apenas como ferramenta política e nesse caso a mensagem está acima da estética, por conta disso, e da falta de recursos, as encenações eram bem precárias e a mesma peça era apresentada diversas vezes, inclusive ao mesmo público. Se por um lado, isso demonstra uma dificuldade, é inegável que aumenta a qualidade da consciência de classes, que era o intuito final.

Para suprir essas dificuldades os centros de cultura, sindicatos e associações se uniram para trabalhar uma espécie de “formação de atores própria”, já que os poucos atores profissionais da época estavam longe dos subúrbios. Com essa “profissionalização” surgem, graças aos anarquistas, os primeiros grupos amadores de teatro da cidade de São Paulo. Portanto, o teatro paulistano, hoje reconhecido mundialmente por sua liberdade, deve muito à ideologia e à coragem dos anarquistas do início do século.

Hoje sabemos que a democracia representativa encontra-se enferrujada no Brasil. Cabe a cada cidadão exercitar sua cidadania e buscar saídas para a encruzilhada em que nos encontramos a fim de nos reinventar, afinal, tempos incertos muitas vezes não são feito de dúvidas, mas de falsas certezas.

Prescindimos de mudanças, daquelas que chacoalham a todos e nos mostram que ainda corre sangue nas veias da nação. Eu, com o sangue quente que me ferve a alma, acredito ainda no sonho e no palco. Acredito na possibilidade de mudança e na igualdade dos homens, e, acima de tudo, acredito em um teatro que ajude a estraçalhar as nossas correntes que ainda resistem pelos séculos através da opressão e dos mecanismos de poder. Já que o governo, sujeito a abusos e perversões, não realiza a vontade do povo, resta-nos crer na força do teatro do povo!

link para a página do facebook do portal de jornalismo cultural a escotilha

Tags
Mostre mais

Bruno Zambelli

Bruno Zambelli é diretor teatral e ator com formação em Artes Cênicas pelo Conservatório Carlos Gomes. Foi editor da revista de cultura Terceira Dentição e colunista do blog cultural Prato do Dia. Foi idealizador e produtor do Sarau LetraFurto em São Paulo. É escritor e idealizador da editora independente Encruzilhada Edições.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

Close