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antropofocus - manoel carlos karam
Foto: Reprodução.

Percebeu como está difícil rir hoje em dia? Primeiro porque o contexto não ajuda, com as palhaçadas de Brasília piorando nossa crise do dia a dia. Mas também porque é preciso olhar primeiro para todos os lados, checar se há alguma ponta afiada demais que ofenda, para quem sabe só então sorrir.

Por isso achei excelente que o grupo Antropofocus, que reúne alguns dos comediantes mais aguerridos de Curitiba, tenha trazido de volta seu No dia seguinte: a quase-história da tevê brasileira, dessa vez para um teatro maior e que ficou abarrotado, e ainda com filas de gente tentando entrar (durante a mostra Novos Repertórios).

Rir ajuda. E falando em passado e risadas, voltemos a abordar o escritor catarinense radicado em Curitiba Manoel Carlos Karam (1947-2005), um cômico em todos os gêneros de escrita pelos quais enveredou.

Karam completaria 70 anos em 2017. A efeméride fez ressurgir um movimento na cidade, um fã clube póstumo bem ao estilo humorístico de sua escrita.

Karam completaria 70 anos em 2017. A efeméride fez ressurgir um movimento na cidade, um fã clube póstumo bem ao estilo humorístico de sua escrita.

Boa parte de seus livros está sendo editado ou reeditado agora, após sua morte. Nos anos 70, ele se dedicou ao teatro, trazendo uma renovação à dramaturgia local. E nos 80 e 90, escreveu livros como Cebola e Jornal da guerra contra os Taedos, admirados nacionalmente pelo experimentalismo entre artistas como Joca Reiners Terron, Marçal Aquino, Ronaldo Bressane e o dramaturgo Roberto Alvim. É um escritor de escritores, cuja principal marca é a escrita em espiral que retoma elementos incessantemente.

Em relação a esse aspecto, Alvim compara a escrita de Karam a uma escavação, em que o autor segue para baixo, criando diferentes jogos, até nos “deixar no fundo do buraco sem escada para voltar à superfície”. Também ressalta a qualidade das descrições do cotidiano desse que ele chama um “anarquista erudito”, a ponto de nos fazer surpreender com o entorno que antes parecia banal.

Para o pesquisador Paulo Sandrini (Uniandrade/PR), os textos teatrais de Karam deram uma nova dimensão ao teatro paranaense na década de 1970, e, nos anos 80, sua escrita “salvou nossa literatura, não só a local, mas a nacional”. Ao lado, é claro, da produção de nomes locais como Jamil Snege, Wilson Bueno e Paulo Leminski.

Abaixo, Sandrini, que editou peças de Karam (Meia dúzia de criaturas gritando no palco, 2013) e contos do autor (“Godot é uma árvore” e “um milhão de velas apagadas”), fala um pouco mais sobre o escritor que, depois de morto, nos brinda com sua fina ironia.

Escotilha – Com que outros nomes a literatura de Karam estabelece um diálogo?

Paulo Sandrini – Karam figura como nome de peso entre grandes autores experimentalistas (bastante diferentes entre si, claro) como Uilcon Pereira, Renato Pompeu, Campos de Carvalho – esses últimos injustamente pouco lembrados na literatura brasileira. Entre os escritores que o admiram, colocaria Joca Reiners Terron, Marçal Aquino, Nelson de Oliveira, Carlos Henrique Schroeder, Ronaldo Bressane e o dramaturgo Roberto Alvim. Mas sei que há tantos outros.

Que inovações ele trouxe na escrita?

Não sei se consigo colocar a palavra “inovação”, acho que nem o Karam gostaria de ser visto assim. Porém, o que sempre impressiona quem o lê são seus incessantes deslocamentos de um possível ponto de fuga. Em Karam, um assunto leva sempre a outro. O encadeamento dos assuntos pode se dar de modo vertical ou espiralado. Mas desse encadeamento vem, incrivelmente, o desencadeamento: Karam embaralha os assuntos. Vai e volta. E nisso lembra muito José Agrippino de Paula em Lugar Público (coloco esses dois autores no mesmo nível de importância também).

Além disso, Karam consegue ser filosófico na suas descrições obsessivas das coisas ao redor, é um miniaturista da linguagem e da percepção – a existência, sob a ótica de Karam, nos é desvelada de um modo muito singular. Enfim, Karam torna o familiar algo muito estranho, nos joga para um eterno campo de oscilações e incertezas. Sua literatura nos faz desconfiar de tudo, de toda estabilidade.

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