Intersecção

Aliens vampiros ou o mundo de Ed Wood

Paulo Biscaia Filho homenageia “pior cineasta do mundo” em sua nova peça, 'Acordei cedo no dia em que morri'.

É marcante a opinião de Paulo Biscaia Filho, que pesquisa o centenário gênero francês Grand Guignol como estética há 20 anos em sua companhia Vigor Mortis, sobre por que as pessoas se sentem atraídas pela violência de suas peças – ou pelo horror em geral. “Porque poderia ser com elas, mas não é.”

Para quem não vibra tanto assim com nervos e sangue cênico, uma porta de entrada para sua estética pode ser seu novo trabalho, Acordei cedo no dia em que morri, em cartaz no Ave Lola até 22 de outubro. Escorre, no máximo, um sangue marciano, mas no geral reina a brincadeira com o cinema trash com altas doses de citações e intertextualidade.

Na peça, as obsessões de Biscaia se confundem com as do cineasta Ed Wood (1924-1978), taxado como “o pior diretor de todos os tempos”. Seus filmes nos anos 50 são um marco do cinema B, em que os efeitos são toscos e os roteiros não ficam atrás. Plan 9 from outter space é considerado, para quem é afeito a um rótulo, o “pior filme de todos os tempos”. Mistura vampiro, zumbi, alienígenas com planos de invadir a Terra, entre outros elementos.

As referências estão não só no texto, criticado pelos próprios atores o tempo todo, mas no cenário, figurinos e trilha sonora.

Muitos desses ingredientes são matéria-prima para Acordei cedo no dia em que morri, que tira seu título de um roteiro de Wood nunca filmado. As referências estão não só no texto, criticado pelos próprios atores o tempo todo, mas no cenário, figurinos e trilha sonora. Ou adereços, como um polvo gigante que abraça o palco de cima a baixo.

Dois livros do cineasta norte-americano também compõem o texto, assinado em parceria entre Biscaia e o ator Luiz Bertazzo: Death of a Transvestite e Let Me Die In Drag. O tema do travestimento tem relação tanto com a biografia de Wood quanto com filmes em que lidou com essa questão, como Glen or Glenda.

Outro motivo para ver o espetáculo são as atuações, sempre propositalmente canastronas e muito trabalhadas dentro da proposta da Vigor. Uma tentativa de sinopse de Acordei cedo no dia em que morri seria: um interno de manicômio (Ricardo Nolasco) foge de sua carrasca sádica (Guênia Lemos), que morre e vira zumbi. Ele é amado e odiado por uma bela cientista (Camila Fávero) e volta até ela. No meio, um vampiro-alienígena (Bertazzo) tenta invadir a Terra e mata e ressuscita alguns deles algumas vezes. É, talvez eu tenha perdido alguma coisa.

As referências que se tenha nunca serão o bastante para dar conta da brincadeira toda. Mas o caldo de intertextualidade, citações a filmes antigos ou outros elementos culturais agregam relevâncias e sintonias ao todo, ainda mais quando se atinge citações de citações, como ocorre como travestimento em Quanto mais quente melhor.

Referência que se torna em alguns momentos fonte emissora principal é a biografia de Ed Wood filmada por Tim Burton, Ed Wood (1994), com Johnny Depp, em que o mundo, para além dos fãs do gênero, conheceu um pouco da difícil vida criativa do cineasta.

Assim como Wood lutou para ver suas ideias e ideais na tela, é admirável a persistência de Biscaia. Na profusão de referências, algum tentáculo irá capturar o espectador incauto.

Ficha Técnica

Direção: Paulo Biscaia Filho
Assistente de Direção: Gabriela Valcanaia
Elenco: Guenia Lemos, Camila Fávero, Ricardo Nolasco e Luiz Bertazzo
Cenário: Guenia Lemos
Figurino: Guilherme Almeida
Iluminação: Wagner Correa
Produção: Duplo Produções
Assessoria de Comunicação e Imprensa: Luciana Melo
Fotos: Lúcia Biscaia

SERVIÇO | ‘Acordei Cedo no Dia em Que Morri’

Onde: Ave Lola Espaço de Criação | R. Mal. Deodoro, 1227, Centro – Curitiba-PR;
Quando: de 28 de setembro a 22 de outubro, quartas e domingos, às 20h; quintas, sextas e sábados, às 23h59;
Quanto: Pague Quanto Vale;
Lotação: 58 lugares.
Duração: 60 minutos.
Classificação indicativa: 14 anos

link para a página do facebook do portal de jornalismo cultural a escotilha

Tags
Mostre mais

Helena Carnieri

Helena Carnieri é jornalista e mestre em Estudos Literários. Escreve sobre a arte curitibana como freelancer para o jornal Folha de São Paulo e mantém o blog de crônicas A vida é palco.

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

Close