Intersecção

Crítica hoje, para quê?

Modificações do contemporâneo se impõem também à arte de falar a respeito de um espetáculo.

Aproveito a oportunidade de uma conversa sobre crítica para a qual fui convidada pela Faculdade de Artes do Paraná (FAP/Unespar) para refletir um pouco sobre o que me trouxe a essa seara.

Sobre o assunto já foi dito muita coisa, em especial que hoje em dia trata-se de oferecer um olhar sobre os espetáculos e performances, jamais ditar o bom e o ruim, dar estrelinhas ou tentar influenciar a ida ao teatro para este ou aquele título em cartaz.

A complexidade envolvida num métier tão subjetivo me levou a escrever uma crônica, que vai a seguir.

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Vou falar bem baixinho pra ninguém ouvir. Escrevo críticas. É, de teatro, sabe?

Quem me deu esse direito? Ninguém.

Quem inventou que é um direito…um lugar de alto saber?

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Sinceramente, não sei o que me fez começar e muito menos por que continuar. Muito menos. Não acho que alguém sonhe quando criança ser “crítico de teatro”.

Simplesmente começa com um impulso, talvez pelo veneno da leitura de outras críticas, e aquilo te faz escrever e pensar enquanto escreve. Nota mental: é importante pensar antes de escrever. Pelo menos um pouco. Mas não tem como pensar tudo, na verdade a maior parte das ideias está nos dedos, elas vêm durante a escrita.

Nem sempre são ideias sistematizadas, podem ser pensamentos, em geral perguntas.

No meu caso, foi um arrasto, um caso de oportunidade ligada à experiência prazerosa de acompanhar espetáculos e escrever a respeito, não sem a oportunidade de publicar o resultado. Um texto engavetado desanima.

Porém, por muito tempo fiz isso com receio, quem me dá esse direito?

E o que escrevo…está certo?

Aos poucos se percebe que não existe um certo. Apesar das críticas da crítica, de todo o não me toque que existe no mundo da intelectualidade, das regras tácitas, ou seja, não formalmente expressas.

A história da crítica vem contaminar o próprio termo – falando de uma função no mundo da arte que hoje é questionada.

Percebo que, ao escrever sobre artes cênicas, atendi a uma necessidade pessoal pelo ato de escrever.

Outros preferem escrita performativa e trazem a arte para a escrita. Um fenômeno que acaba por estimular o quê? A própria escrita e, espera-se, a leitura. Quando não houver mais leitura, pra que escrita? Talvez quem precisa escrever continue mesmo assim.

Atitudes que fazem falta na minha escrita: ler mais, muito mais. Conhecer mais, conversar mais, procurar mais palavras no dicionário e incorporá-las.

Quando você lê, aprende e expande até mesmo suas…palavras. Incrível isso, não?

Percebo que, ao escrever sobre artes cênicas, atendi a uma necessidade pessoal pelo ato de escrever, não necessariamente porque eu tivesse ou tenha algo a dizer sobre os espetáculos. Acabo me obrigando a pensar, estudar, buscar um mestrado na área para ter, enfim, pelo menos alguma consistência.

Não por acaso, procurei esse estudo na área de Literatura e outras linguagens, um campo híbrido sem um radicalismo teórico ou performático. Um meio-termo, uma lady.

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Dificuldades: pobreza discursiva. Posicionamento ideológico. Quando ele transparece na cena, a ética muito à frente da estética, minha fruição cai quase a zero.

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Helena Carnieri

Helena Carnieri é jornalista e mestre em Estudos Literários. Escreve sobre a arte curitibana como freelancer para o jornal Folha de São Paulo e mantém o blog de crônicas A vida é palco.

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