Intersecção

‘Hoje é dia de rock’: Musical poetiza vida familiar

Estreia curitibana de Gabriel Villela, 'Hoje é dia de rock' enche de lirismo o interior brasileiro.

Provavelmente meu último espetáculo visto em 2017, Hoje é dia de rock foi também o único do ano que recomendei a pessoas que não gostam de teatro. Dirigindo o Teatro de Comédia do Paraná (TCP), do Teatro Guaíra, Gabriel Villela alcança um musical com dramaturgia complexa, o que é raro de se ver. Um show de que dificilmente se sai sem ser tocado, cuja temporada acabou dia 17 de dezembro.

O lirismo vem em baldes de ternura, seja no texto original de José Vicente, seja na encenação com 11 artistas locais e um músico convidado.

Na trama, uma família com cinco filhos precisa se deslocar em busca do sustento, do interior para uma cidade um pouco maior, e nos ajustes vindos com a mudança flagramos momentos de transformação interior que só metáforas poderiam contar.

Hoje é dia de rock
Foto: Vitor Dias.

Como é marca dos trabalhos visualmente impactantes de Villela, a poesia vem já nos quadros que se formam a cada cena.

Falar do relacionamento entre mãe e filho já rende algumas lágrimas certas. Cinco filhos, então, multiplicam a potencialidade das dores relacionadas à segurança da prole, ameaças do mundo exterior e o desejo incontrolável de saber que fim darão.

Como é marca dos trabalhos visualmente impactantes de Villela, a poesia vem já nos quadros que se formam a cada cena, tendo por fundo um grande mapa desenhado. “Ventania” é a localidade onírica da qual se fala, para onde serpenteia um rio dourado.

Os coloridos e inusitados ajuntamentos do figurino (de Villela e José Rosa) também trazem essa sensação de riqueza visual. Enquanto isso, as cenas são como quadros pincelados com movimentos que incluem cambalhotas e fileiras de atores na diagonal, ampliando nossa perspectiva.

A história de interioridades e interioranos é contada com auxílio de diversas canções de Milton Nascimento, encaixadas a ponto de fazer parecer que se trate de um musical de sua obra.

O lirismo está também nas palavras, e entre elas “Minas” surge como a principal metáfora, talvez como o “sertão” nas Veredas de Guimarães Rosa. Portanto: “Minas, é dentro da gente”.

Até eu, legítima curitibana, de sotaque e topete, saí um pouco mineira.

FICHA TÉCNICA

Hoje é dia de Rock

Texto: José Vicente;
Elenco: Rosana Stavis e Rodrigo Ferrarini, Arthur Faustino, Cesar Mathew, Evandro Santiago, Flávia Imirene, Helena Tezza, Kauê Persona, Luana Godin, Matheus Gonzáles, Nathan Milléo Gualda, Paulo Henrique dos Santos e Pedro Inoue;
Direção, Cenografia e Figurinos: Gabriel Villela;
Diretor Assistente: Ivan Andrade;
Direção Musical, arranjos e preparação vocal: Marco França;
Assistente de figurinos e aderecista: José Rosa;
Iluminação: Wagner Correa.

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Helena Carnieri

Helena Carnieri é jornalista e mestre em Estudos Literários. Escreve sobre a arte curitibana como freelancer para o jornal Folha de São Paulo e mantém o blog de crônicas A vida é palco.

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