Intersecção

James Joyce à italiana

Conto poetizado de James Joyce, 'Giacomo Joyce' é encenado usando a linguagem de Libras depurada em teatro.

Giacomo Joyce é a entrega do autor de Ulysses à verve latina, em que crítica social e sensualidade estão ainda mais entranhadas e altissonantes. Falam alto? Como então responder ao desafio de levar o texto póstumo de James Joyce a uma plateia de surdos?

O diretor Octávio Camargo traz uma proposta na peça Giacomo Joyce, em cartaz no Novelas Curitibanas até 21 de maio de 2017. A partir da paixão da atriz Helena de Jorge Portela pela linguagem de Libras, seu objeto de estudo e interesse, surgiu a parceria com o tradutor Jonatas Medeiros, que está com ela em cena.

A concepção da montagem promove o espaço restrito normalmente destinado à tradução em Libras – aquele quadradinho na televisão, ou um canto do auditório quando em palestras ou peças –, à cena em si. Num Teatro Novelas Curitibanas mais pelado e enegrecido do que jamais se viu, os dois atores se posicionam no centro, lado a lado, vestindo preto – como os tradutores em Libras costumam fazer.

Desse lugar de exposição máxima eles comandam a “tradução para teatro”, como gosta de dizer o crítico francês Patrice Pavis, do curto texto de Joyce. Uma tradução que contempla ouvintes e surdos, trazendo acessibilidade à alta literatura. E por falar em tradução, cabe a informação de que a versão em português é de ninguém menos que Paulo Leminski, que faz uso da liberdade do tradutor e de sua veia poética própria.

A trama se passa em Trieste, onde um estrangeiro se apaixona por uma jovem mestiça. A julgar pelo título, o protagonista é o próprio Joyce.

São 16 páginas de um poema romântico – no sentido de que trata de encontros amorosos, e não, é claro, da escola romântica, visto que a modernidade de James Joyce o precede. Aliás, uma das características que enriquecem essa obra literária é o diálogo constante com a obra pregressa do escritor irlandês, que insere no poema citações ao seu Retrato do artista quando jovem e ao Ulysses, bem como ao Hamlet de Shakespeare e Hedda Gabbler e Casa de bonecas de Ibsen, autor que Joyce amava.

A trama se passa em Trieste, onde um estrangeiro se apaixona por uma jovem mestiça. A julgar pelo título, o protagonista é o próprio Joyce, cujo prenome seria “Tiago” em português, ou “Giacomo” em italiano.

As descrições abundam, transportando-nos para a cidade fronteiriça da Itália em seus odores, feiras, manias, preconceitos. Em meio a eles há o encontro com a dama negra, a união dos corpos, a desilusão. Não teremos certeza até o final, porém, se o que ele conta é realidade ou mero desejo.

Emprestando o corpo a essa fábula, Helena e Jonatas unem as linguagens do teatro, o português e as Libras, fazendo ver, enxergar as palavras. A moldura do relato, e que faz as vezes de cenário e adereços é a iluminação de Beto Bruel, que lembra um pouco a criação que ele fez, também em parceria com Camargo, para a série de monólogos IlíadaHomero.

Cena do espetáculo Giácomo Joyce.
Espetáculo ‘Giacomo Joyce’. Foto: Reprodução.

Os black-outs dividem a cena em módulos curtos, como que virando as páginas do poema de Joyce, encontrado manuscrito após sua morte. O negror absoluto e constante como que confere peso a cada conjunto de palavras, deixando na mente as últimas expressões dos atores. Ambos utilizam Libras e atuam, num conjunto que puxa para o humor.

A luz também promove sombras gigantes que contracenam com os atores e mudanças frequentes para espantar a dispersão natural por conta do texto difícil e um tanto enigmático, em que se encaixam, vez ou outra, palavras em italiano.

O conjunto é vivido pela dupla com grande entrega, durante 50 minutos de puro teatro.

Nesta temporada de estreia, a peça é acompanhada por exposição com fotos e trechos de peças em vídeo de Claudete Pereira Jorge, grande perda do teatro paranaense em 2016.

SERVIÇO | ‘Giacomo Joyce

Onde: Teatro Novelas Curitibanas | R. Presidente Carlos Cavalcanti, 1222;
Quando: De 20/04 a 21/05, de quinta a sábado, às 21h, e domingo, às 19h;
Quanto: Grátis;

FICHA TÉCNICA

Direção: Octávio Camargo
Assistente de direção: Nautílio Portela
Direção de movimento: Kátia Drumond
Elenco: Helena de Jorge Portela e Jonatas Medeiros
Iluminação: Beto Bruel
Trilha Sonora e programação visual: Chico Paes
Tradução do texto em Libras: Jonatas Medeiros
Diretor de Produção: Jewan Antunes
Assessoria de Imprensa: Mariane Antunes
Realização: Cia Fluctissonante
Projeto aprovado no Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura | PROFICE da Secretaria de Estado da Cultura | Governo do Estado do Paraná.

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Helena Carnieri

Helena Carnieri é jornalista e mestre em Estudos Literários. Escreve sobre a cena cultural de Curitiba. Foi setorista de artes cênicas durante 5 anos no jornal Gazeta do Povo. Publica críticas também nos portais Teatrojornal e Agora Crítica Teatral.

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